A Palavra que salva

A Palavra que salva…

Pe. Josimar Baggio, scj.

            As Sagradas Escrituras são a alma da teologia e, portanto, conhecê-la é de fundamental importância para a fé e para a própria salvação dos que creem. Essa importância tão notória se deve, inicialmente, ao fato de que “a Palavra de Deus não são meras palavras. A Palavra é uma pessoa que fala e fala a outra pessoa”.[1] É Deus que nos fala através de palavras humanas. Nós que “recebemos a Palavra, o Livro! Somos convidados a desenrolar o Livro e ler o Livro. […] desenrolar como perscrutar, ler e reler, meditar, guardar, duvidar pesquisar, dialogar, discutir, querer entender, até cair na graça de crer; de crer, não de saber, mas da sabedoria”.

            “No passado, muitas vezes e de muitas formas, Deus falou a nossos pais, pelos profetas. Neste tempo final, falou a nós pelo Filho, a quem fez herdeiro de tudo e por intermédio de quem criou todas as coisas” (Hb 1,1-2). O texto da carta aos Hebreus faz alusão à doutrina da Revelação professada pela Igreja e ratificada ao longo do tempo pelos escritos do Magistério. O Catecismo da Igreja Católica, por exemplo, afirma que “por meio de todas as palavras da Sagrada Escritura, Deus pronuncia uma só Palavra, o seu Verbo único, no qual se expressa por inteiro”.[2] É Cristo, portanto, a Palavra única do Pai, no qual Ele se revela plenamente. “Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado ‘como homem aos homens’, ‘fala’ portanto ‘as palavras de Deus’ (Jo 3,34) e consuma a obra da salvação que o Pai lhe mandou realizar (Cf. Jo 5,36; 17,4)”.[3]

            Ora, se Cristo é a Revelação plena de Deus, o modo como Deus quis mostrar-se em seu projeto benevolente, as Escrituras todas devem ser lidas a partir de um centro iluminador motriz que é o próprio Cristo. Somente assim poderá ser verdadeira a máxima de Santo Agostinho (citada no Catecismo) que “o Novo Testamento está escondido no Antigo e o Antigo é desvendado no Novo”.[4] Como decorrência disso, é importante notar também o que a Dei Verbum afirma categoricamente: “Ninguém ignora que, entre todas as Escrituras mesmo no Novo Testamento, têm os Evangelhos o primeiro lugar, enquanto são o principal testemunho de vida e doutrina do Verbo Encarnado”.[5] Em outras palavras, para bem conhecer a Palavra de Deus no real sentido da Revelação cristã, é necessário iniciar conhecendo a sua raiz, a vida, ensinamento, obras, paixão morte e ressurreição.

            E, para salvar-se é necessário conhecer e aderir à Palavra de Deus, sendo ela parte da Revelação. Sesboüé afirma que “se a salvação do homem consiste em entrar em comunhão com Deus, não pode haver salvação para ele sem “conhecer” a Deus”.[6] Ora, conhece-se ao Deus que se revela através e principalmente da Palavra de Deus. Mais que isso, é necessário que os fieis passem a conhecer cada vez mais o Cristo que nos revela o rosto do Pai.

            A salvação, enfim, consiste em conhecer a Deus. E conhecêmo-Lo através de Cristo, da Palavra dos Evangelhos que nos foi dada pela Tradição da Igreja. É o que corrobora a Sacrossanctum Concillium ao afirmar que “Cristo está presente em sua palavra, pois quando se lê na Igreja a Sagrada Escritura, é Ele quem fala!”.[7] Neste sentido afirmou, também, São Jerônimo: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”. Ora, se ignoramos a Cristo, não conhecemos o Pai e se a salvação consiste em conhecer o Deus que se revela, o conhecimento das Sagradas Escrituras, notoriamente dos Evangelhos, é necessário para a salvação.


[1] CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, Discípulos e servidores da Palavra de Deus na missão da Igreja, São Paulo: Paulinas, 2012, p. 10.

[2] CAT n. 102.

[3] PAULO VI, Constituição Dogmática “Dei Verbum” sobre a Revelação Divina, n. 4 (DV 4), In.: Documentos do Concílio Vaticano II, São Paulo: Paulus, 1997.

[4] CAT n. 129.

[5] DV 18.

[6] B. SESBOUÉ, Jesucristo el unico mediador, Tomo 1, Salamanca: 1990, p. 137.

[7] SC 7.

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