Desafios da fé no mundo de hoje

Vivemos em um tempo em que respiramos a descrença e os desafios da fé são imensos! Mesmo aqueles que têm fé facilmente se sentem asfixiados pelo ar da incredulidade. A ideia é que a fé foi uma fantasia infantil de um tempo superado da humanidade. Mas o ser humano tem necessidade de crer em algo acima dele, ele é autotranscendente. Por isso, na verdade, muitos trocaram a fé da Igreja, a fé em Jesus Cristo, por verdadeiras fábulas, e a Carta de São Paulo a Timóteo, a meu ver, expressa muito bem o nosso tempo: “Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajuntarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fabulas” (2Tm 4,3-4).

Em meio a tantas confusões e enganos, seduções e ilusões de todo o tipo, o cristão precisa, mais do que nunca, de uma virtude: a ESPERANÇA. Não falo aqui da esperança humana simplesmente, que, como diz um ditado: “a esperança é a última a morrer, mas morre”. Falo da Virtude Teologal da Esperança, um dom de Deus. A Esperança é essa virtude que fortalece a fé, que torna a fé viva e real. Cremos em algo que não vemos, em uma realidade que não observamos por nós mesmos. “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). A Esperança, por sua vez, torna vivo aquilo em que cremos, tão vivo que quase se vê o que se crê. “A fé une o homem a Cristo; a esperança abre esta fé para o vasto futuro de Cristo. Por isso a esperança é a companheira inseparável da fé. Se falta a esperança, por mais genial e eloquentemente que falemos da fé, podemos estar certos de que não temos nenhuma!” (J. Moltmann).

Desafios da fé
Cremos em Jesus Cristo e no céu que Ele nos promete. Pela virtude da Esperança, somos capazes de, mesmo estando com os pés nesse mundo, ter o coração voltado, ancorado no céu. “Esperança esta que seguramos qual âncora de nossa alma, firme e sólida, e que penetra até além do véu, no santuário, onde Jesus entrou por nós como precursor, pontífice eterno, segundo a ordem de Melquisedec” (Hb 6, 19-20). O cristão que espera no que crê, tem seu tesouro “onde as traças não corroem, e os ladrões não roubam” (Mt 6,19). O mundo pode querer enganar, seduzir e até massacrar, mas aquele que espera “em todas essas coisas é mais que vencedor” (cf. Hb 8,37).

Nesse tempo de “rarefeito de fé”, como o ar “rarefeito de oxigênio”, em que a pessoa fica convalescente e amolecida, para nossa fé não ser convalescente, porque não temos o “oxigênio da fé”, precisamos dos “balões de oxigênios de esperança”. Precisamos encher os pulmões de nossas almas de esperança e de fé. E isso, diariamente! Quais são esses balões?

A oração que nasce da intimidade com Deus de um momento parado diário, e perdura numa oração continuada no dia a dia;
A vida sacramental, especialmente a busca frequente da Eucaristia e a Confissão;
A formação, que nos leva a conhecer aquilo em que realmente cremos e assim amar mais o que acreditamos;
A vida comunitária, lugar de presença especial do Senhor porque Ele mesmo prometeu que “onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí eu estou no meio deles” (Mt 18,20);
A missão, porque Deus é amor, e somente sendo amor nEle e com Ele, vivendo o dom de si na evangelização, nas obras de misericórdia e em todas as ocasiões de amor, é que conheço a Deus, porque “quem ama conhece a Deus” (cf. 1Jo 4,6-8).
Nos desafios da fé, além dos balões da esperança, é necessário o DISCERNIMENTO. Sem um bom discernimento, facilmente podemos ser engados, até mesmo em nome de ações piedosas e caridosas. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,2).

Discernir é julgar. Estranho isso?! A Palavra de Deus diz que “o homem espiritual julga todas as coisas” (1Cor 2, 15). É que estamos falando de julgar as realidades, a moralidade dos atos humanos, e nunca as pessoas em si.

O maligno é astuto, “anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé” (1Pd 5, 8-9). Nesse mundo paganizado, cheio de ciladas, é grave a necessidade do discernimento.

Para um bom discernimento é preciso usar de critérios:
Externos a si mesmo:
Coerência com a Sagrada Escritura e ensinamentos da Igreja;
Coerência com as exigências da minha própria Vocação;
Sinais de Deus na realidade, nos irmãos e no diretor espiritual.
Internos, que são os frutos da realidade em si:
Paz, que não é sinônimo de tranquilidade;
Conversão; e o grande sinal de conversão é a humildade.
Auxílios do Espírito Santo:
Virtude da Prudência
Dom do Conselho
Discernimento dos Espíritos

Em meio aos desafios da fé, saibamos que a vida cristã é o seguimento de Jesus Cristo em sua caminhada pascal de Paixão, Morte e Ressurreição. O mistério pascal perpassa a vida do cristão e da Igreja. Essa verdade é a base da superação dos desafios da fé na vida e no mundo. Com grande sensibilidade, Bento XVI assim definiu esse mistério: “Sim, o poder de Deus é suave neste mundo, mas é o verdadeiro, o poder que permanece. Parece que as coisas de Deus se encontram sempre em ‘agonia’. Mas se mostram como o que realmente subsiste e redime” (Bento XVI, Jesus de Nazaré).

André Luis Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da Comunidade Católica Pantokrator
pantokrator.org.br

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