O Amor que Liberta – Por Pe. Josimar Baggio, scj

O AMOR que liberta![1]

Pe. Josimar Baggio, scj.

O amor, enquanto afirma a totalidade da pessoa e também quando se identifica com sua própria realidade, é para a pessoa humana a realização total e plena de seu ser e de sua existência. É na doação de si ao outro que a pessoa humana encontra sua própria realização. Essa doação se identifica como sendo uma liberdade profunda atuada para Deus. Contudo, infelizmente, esta “doação de si” está fora do alcance do homem pecador; porque o homem pecador tem a sua liberdade fixada em si mesmo e escrava de seu egoísmo.

Libertado pela ação do Espírito Santo, gratuitamente, o ser humano volta sua liberdade para Deus e começa a viver já na terra a atitude que, eternizada, constituirá para ele o céu. O amor a Deus é o próprio núcleo da salvação. Tomás de Aquino, neste sentido, afirma que a felicidade do homem é Deus. Assim, onde estiver presente esse amor, aí já está a salvação.

Porém, o amor autêntico a Deus nasce, vive, cresce e se comprova a partir de opções concretas, em geral atos das virtudes: paciência, temperança, desapego, piedade, humildade, perseverança, justiça, etc. Tais virtudes devem sua existência ao estímulo superior do amor, que não é assim mais uma virtude, mas a fonte delas. ‘’Quem conserva e guarda meus mandamentos, este me ama’’(Jo 14, 21). O nível das opções manifesta a autenticidade do nível da orientação profunda. Pode-se concluir que toda e qualquer ‘virtude cristã’ só é tal se for, de fato, gestada e dinamizada pelo amor.

Deus é transcendente, é inacessível, é mistério para o ser humano. Deus é quem nos sustenta na existência, quem nos faz conhecer, quem nos possibilita amar (Gl 5,13; 2Cor 3,6; Rm 8,2). Porém, é na relação interpessoal que Deus se faz presente e, de certo modo, é percebido pelo ser humano. Estar-voltado-para-o-outro (amor fraterno) é a atitude fundamental do que ama; é a totalidade da pessoa que se doa. Essa atitude se torna a orientação profunda da vida da pessoa.

Somente fazendo a experiência do amor fraterno a pessoa tem uma verdadeira experiência de Deus. Ela entende o que é o amor a Deus que não pode prescindir da experiência do amor humano autêntico. O Ágape cristão é, assim, a experiência intrínseca e simultânea de amor a Deus e aos irmãos.

Pela caridade, o cristão ama com o mesmo amor com que Deus ama. Essa comunhão de vida com Deus é que lhe dá o conhecimento de Deus. Entretanto, a vivência da caridade não é fácil, nem imediata. Supõe a oração e exige mudança no modo de olharmos os outros. O compromisso desinteressado do homem com seu semelhante vem sempre unido ao mandamento do amor a Deus e vice-versa (Cf. Mt 22,39; Mc 12, 31).

“O fim de tudo é a caridade, e Deus é caridade. Este é o fim, o objetivo. O resto é caminho. Não te prendas ao caminho com o risco de não chegarmos ao fim. Busca onde passar, não onde ficar”, afirmava Santo Agostinho. O amor (nosso comportamento diante do semelhante), dessa forma, será critério decisivo para nossa salvação (Cf. Mt 25,34-36).

Portanto, a salvação de Jesus Cristo consiste em libertar a nossa liberdade para o amor. A graça só é realidade no ser humano quando este a aceita e esta aceitação se dá no compromisso com o próximo. Só no amor concreto triunfa a ação salvífica de Deus e simultaneamente se liberta nossa liberdade. A expressão “estado de graça” é incompleta para descrever a profunda atitude cristã que é “viver na graça”, ou seja, acolher o dinamismo do Espírito que nos impele ao amor. Não se trata de “praticar mandamentos”; trata-se de correr o risco do amor, o risco de ser cristão. O amor: objetivo último de toda e qualquer ação da Igreja. Com já afirmou D. Pedro Casaldáliga, “o  contrário do amor não é, como muitas vezes se pensa, o ódio, mas sim o medo de amar, e o medo de amar é o medo de ser livre.”

[1] Cf. Mario de FRANÇA MIRANDA, A salvação de Jesus Cristo: a doutrina da graça, São Paulo: Ed. Loyola, 2016, pp. 130-135.

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